Segunda leitura
Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Ambrósio, bispo
(Ps. 1,4.7-8: CSEL 64,4-7)
(Séc. IV)
O suave livro dos salmos
Embora toda a divina Escritura exale a
graça de Deus, o mais suave é o Livro dos Salmos. Moisés, que escreveu os
feitos dos patriarcas em simples prosa, quando fez passar através do mar
Vermelho o povo dos pais para imperecível admiração, vendo afogados o faraó e
seus exércitos, sentiu inflamar-se seu engenho, pois conseguira portentos acima
de suas forças, e elevou triunfal Cântico ao Senhor. Maria, também, tomou o
pandeiro e assim exortava as outras, entoando: Cantemos ao Senhor, que
se cobriu de glória e de honra; lançou ao mar cavalo e cavaleiro.
A história instrui, a lei ensina, a
profecia anuncia, a correção castiga, a moral persuade. Ora, no Livro dos
Salmos há proveito para todos e remédio para a salvação do homem. Quem o lê,
tem remédio especial para as chagas das paixões. Quem quiser lutar como em
ginásio de almas e estádio de virtudes, onde estão preparados diversos gêneros
de luta, escolha para si aquele que julgar mais adequado para mais facilmente
alcançar a coroa.
Se alguém quiser recordar e imitar os
feitos gloriosos dos antepassados, encontrará compendiada num salmo toda a
história de nossos pais, podendo assim enriquecer o tesouro da memória numa
breve leitura. Se alguém perscruta a força da lei que está toda no vínculo da
caridade (quem ama o próximo, cumpriu a lei), leia então, nos salmos,
com quanto amor um só se expôs aos mais graves perigos para repelir o opróbrio
de todo o povo. Donde se reconhece não ser a glória da caridade menor do que o
triunfo da virtude.
Que direi sobre o dom da profecia? Aquilo
que outros anunciaram por enigmas, só a este, aparece clara e abertamente a
promessa de que o Senhor Jesus nasceria de sua linhagem, conforme lhe
falou: Porei sobre teu trono o fruto de tuas entranhas. Por
conseguinte, nos salmos não apenas nasce Jesus para nós, mas ainda aceita a
salvífica paixão de seu corpo, adormece, ressurge, sobe aos céus, assenta-se à
direita do Pai. O que homem algum ousaria dizer, só este profeta anunciou e
depois o próprio Senhor o manifestou no seu evangelho.
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